Proposta Curatorial

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TERRITÓRIO ESTRANGEIRO, por Tom Lisboa

Tanto na geografia humana quanto na política, o conceito de território é definido como o espaço sobre o qual o Estado exerce sua soberania e defende os interesses da sociedade que representa. País, pátria, patriarcado, todos estes termos que trazem a ideia de permanência da história e da cultura têm origem no grego pater, que se refere a um território ou jurisdição governado por uma autoridade. Por isso, adentrar um território ao qual não pertencemos requer, além de muita burocracia, um estágio para adaptação. Em Cidade Polifônica, o antropólogo italiano Massimo Canevacci, narra parte de seu processo de interação com São Paulo, ao qual chegou em 1984, na época do carnaval. Seu estranhamento como não-nativo começou já na chegada, ao encontrar o comércio fechado por vários dias, as ruas em festa e, sem conhecer o “câmbio paralelo” de dólares, ficando alguns dias sem cruzeiros no bolso. Ironicamente, é a partir desta nova perspectiva que ele compreende o que é ser italiano. Ele ilustra este sentimento citando o filósofo alemão Walter Benjamin:

“Antes de conhecer a própria Moscou, é Berlim que aprendemos a conhecer através de Moscou”.

Por outro lado, o Brasil lhe parece mais nítido do que para os seus próprios habitantes porque, como ele diz, “muitas vezes, o olhar desenraizado do estrangeiro tem a possibilidade de perceber as diferenças que o olhar domesticado não percebe, interiorizado e demasiadamente habituado pelo excesso de familiaridade”. A Fotografia como território desconhece a xenofobia. Desde sua invenção nas “eras do carvão e do ferro, da mecânica e da química” citadas por André Rouillé até as imagens voláteis das câmeras digitais e celulares, passando pela sua importância na invenção do cinema e o diálogo com a pintura, a landart, a perfomance, a instalação, o som e o vídeo, a fotografia se tornou um espaço privilegiado para experimentação.

Em “Território Estrangeiro”, o CLIF pretende construir um ambiente baseado na dicotomia proposta por Canevacci. No filme “Feito poeira ao vento”, de Dirceu Maués, fotos de pinholes tomam o lugar dos fotogramas;

Imagens Posteriores

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no vídeo “Vera Cruz”, de Rosângela Rennó, legendas nos levam a imaginar cenas e quadros do descobrimento do Brasil; Alex Flemming dilui em mapas, textos e serigrafia os corpos fotografados; Giselle Beiguelman revisita o Surrealismo e o Glitch ao desconstruir o espaço urbano com os ruídos visuais de “Cinema Lascado”; “Projeto Pas de Danse”, de Samuel Kavalerski, propõe uma coreografia de múltiplas possibilidades com o uso da fotografia e a interatividade da internet; nos trabalhos de Juliane Fuganti a natureza aparece misteriosamente diluída assim como as fronteiras entre a fotografia e a gravura; nas “Paisagens Alteradas” do coletivo estendal as cores suprimidas das fotografias retornam à imagem através da ação do público com lápis de cor; na série de Vilma Slomp a fotografia ganha os contornos sinuosos dos objetos que representa; com a obra “Ilha”, Bruno Faria resignifica fotos publicitárias em uma instalação escultórica; Lucas Simões também se aproxima da tridimensionalidade ao construir seus retratos com relevos psicológicos;

em “ser rio e ser cor”, Guilherme Maranhão parte da informática e da serigrafia para estabelecer novas possibilidades de produção fotográfica; na performance de Rogério Ghomes as imagens voláteis de um celular circularão pelo espaço das redes sociais; Daniel Viana encena uma ação urbana em que histórias contadas pelo público são documentadas em guardanapos e papel fotográfico; em “Heliográficas”, Gerardo Repetto mescla a fotografia à performance para falar sobre memória e ausência; Alexandre Sequeira apresenta registros da instalação “Nazaré do Mocajuba”, uma experiência radical de fotodocumentarismo; Tony Camargo propõe associações cromáticas e pictóricas a cenas (quase surreais) do cotidiano; e, por fim, com a intervenção “Imagens posteriores”, Patricia Gouvêa cria janelas paradisíacas que dialogam com a paisagem urbana.

Deste modo diluída, deslocada em outras formas de expressão, a fotografia assume ao mesmo tempo seu papel de estrangeira e legitima sua identidade. No entanto, não se pretende (e nem seria possível) fazer um minucioso mapa deste território. Seria uma tarefa tão ingrata quanto os mapas que coincidiam em escala com o próprio Império, no conto “Do rigor na ciência“, do escritor argentino Jorge Luis Borges. Mapas assim “são inúteis e entregues às inclemências do sol e dos invernos”, como o autor mesmo afirma. Em “Território Estrangeiro” as fronteiras estão abertas e seu limite é propositalmente desconhecido. Aqui a fotografia é um devir.